Lucas Luis Sousa Véras – Hospital de Amor – Barretos

Imagens

História clínica


Paciente masculino, 77 anos, natural de Xinguara (PA), apresentou dor referida em topografia retal que “irradiava para o testículo” desde 2013, além de hematúria e perda de peso. Exames bioquímicos: PSA de 2,73ng/ml, CEA de 1,59ng/ml e testosterona total de 30,9 nmol/L. RNM de abdome inferior evidenciou formação expansiva, heterogênea, de aspecto tubular lobulada, com contornos bem definidos, sólido-cística, com conteúdo hemático e localizada superiormente à próstata e posteriormente à bexiga, medindo aproximadamente 13,8 x 5,7 x 3,2cm. A lesão se comunicava com ducto ejaculatório. Bexiga, reto e próstata de aspecto radiológico habituais. Hipótese radiológica de tumoração neoplásica ou degeneração de remanescente mülleriano. O paciente foi submetido à vesiculectomia videolaparoscópica com linfadenectomia ilíaca externa direita em janeiro de 2018.

Diagnóstico


Adenocarcinoma Primário De Vesícula Seminal (Apvs)

Handout


Macroscopicamente, a lesão era regular, lobulada, de superfície rósea, lisa e brilhante medindo 10,0 x 8,5 x 3,0cm. Aos cortes, observam-se cavidades, com conteúdo central ora acastanhado ora enegrecido, com formações vegetantes e digitiformes e paredes brancacentas firmes. Aderida à peça, nota-se estrutura tubular, referida pelo cirurgião como “ducto deferente” medindo 8,0 x 0,4cm. Recebidos dois linfonodos, o maior medindo 1,8cm no maior eixo. Ao exame microscópico, nota-se neoplasia epitelial atípica, de aspecto infiltrativo, com arranjo predominantemente papilífero e estruturas glandulares. As células têm núcleos grandes, redondos, alguns claros, com nucléolos evidentes e exibem citoplasma eosinofílico escasso. Observam-se ainda, extensas áreas de necrose e desmoplasia peritumoral. Ducto deferente livre de infiltração neoplásica. Os dois linfonodos exibem metástase de carcinoma com arranjo papilífero, sem transposição capsular. A neoplasia exibe positividade para CK7, CA-125 e negatividade para CK20, PSA, GATA 3, RCC, Tireoglobulina, Prosteína, p53, WT1 e SALL4. O paciente segue em tratamento adjuvante com quimioterapia, sem queixas urinárias, sem recidiva local da doença aos exames radiológicos de controle (último exame em outubro de 2018), mas exibindo linfonodomegalias retroperitoneais periaortocavais e ilíacas bilaterais. Bexiga, próstata e reto mantém aspecto habitual. O Adenocarcinoma primário de vesícula seminal (APVS) é raro, com cerca de 60 casos relatados até hoje. A média de idade é de 62 anos, mas com relatos em diversas idades, que variam dos 13 aos 90 anos. A etiologia ainda é desconhecida, podendo estar relacionada a estimulação por testosterona. Os sintomas são inespecíficos e geralmente se apresentam em doenças com estágios avançados. As principais manifestações são hematúria, hematoespermia, constipação, dor em pelve e períneo, além de perda de apetite. Macroscopicamente são tumores grandes, com tamanhos que variam de 3 a 10cm. São sólidos, com áreas císticas e podem invadir estruturas adjacentes. Os principais diagnósticos diferencias são infiltração secundária da vesícula seminal, devendo excluir infiltração por neoplasia da próstata, bexiga, reto, cólon e metástases de sítios distantes. Em 1956, Dalgaard e Giertson estabeleceram os seguintes critérios para diagnósticos de APVS: microscopicamente o tumor deve ser um carcinoma com localização exclusiva ou principal na vesícula seminal; a presença de outro carcinoma primário deve ser excluída; o tumor deve, de preferência, ser um adenocarcinoma papilar que se assemelha à arquitetura da vesícula seminal não neoplásica. Histologicamente é um adenocarcinoma papilífero de células claras, com algumas trabéculas e padrão glandular pode ser visto. O APVS exibe imunoexpressão para CK7 e CA-125. Recomenda-se pesquisa imunoistoquímica para descartar neoplasias de outros sítios, tais como CK20, CDX2, PSA e GATA3. Devido ao diagnóstico em estágio avançado da doença, é uma neoplasia de prognóstico pobre, com sobrevida menor que 3 anos na maioria dos casos. O tratamento consiste em exérese cirúrgica com margens amplas associada a hormonioterapia adjuvante, radioterapia ou ambas.

Bibliografia


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